De Mariana para Mariana

1 de dezembro de 2015

mariana

Algumas das lembranças mais gostosas que eu tenho da infância são as viagens de carro com a minha família. A cada feriado, ou mesmo final-de-semana, era para lá que íamos: Mariana. A cidade do meu pai, um pouco da minha mãe, dos meus tios, primos, avós e de tanta gente boa, simples e acolhedora.

Acreditem! Três dias por lá e algumas visitas a parentes e amigos eram o suficiente para uma overdose de cafezinho, bolo e queijo. Afinal, é quase uma afronta chegar à casa de um mineiro e recusar esse ato tão acolhedor.

Mas, voltando à minha infância, lembro que o percurso entre Belo Horizonte, a capital do Estado de Minas Gerais, e Mariana era coberto em pouco mais de duas horas, de carro. Porém, para uma criança, o que são DUAS horas dentro de um carro sem poder correr, pular, brincar ou gritar?

Pois é! Seriam duas horas torturantes se não fosse meu pai. Por mais que eles, os meus pais, jurem não ter sido proposital, é uma coincidência muito grande eu me chamar justo Mariana. Ok! Tudo bem que minha irmã mais velha seja Marina.

Talvez, como se fazia antigamente, eu me chame Mariana para combinar os nomes. (Sim, isso daria outro texto só para contar como minha família conseguiu ser criativa nessa parte.) O fato é que, proposital ou não, meu pai me fazia acreditar que estávamos viajando para dentro de mim.

Sim! Para Mariana. Eu mesma. Muito prazer.

— Pai, já tá chegando?

— Ainda não! Tá vendo essa curva? Estamos contornando o seu joelho agora!

Assim era durante todo o caminho: o contorno do joelho, a reta da coxa, a curva da barriga, até, finalmente chegarmos. Como eram felizes aqueles dias. Como ainda são felizes os dias em que entramos no carro — agora em uma estrada mais longa — e passamos alguns dias por lá.

Não! Essa cidade, a minha cidade, não merece estar passando por essa tragédia. E, por mais que a parte afetada possa ser como só uma de minhas pernas, ou até mesmo um pé, dói. Não se fica em pé sem uma perna. Não se fica feliz sem uma parte de você, sem uma parte da cidade.

Força, minha xará! ‪#‎ForçaMariana.

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Deus, Diabo e Dublin

30 de novembro de 2014

pub

Deus e o Diabo estavam brincando.
Deus, o todo poderoso, adorava um desafio. Já o Diabo, o todo podreoso não se fazia de rogado:
_ Se é pra brincar, vamô brincá de criá!
O primeiro desafio foi aceito sem tretas, criar a melhor coisa do mundo com apenas três letras. Deus criou o CÉU: azul, infinito, aonde as almas se elevam e o espírito se enobrece.
O Diabo, claro, pensou rápido e criou um tal de PUB: iluminado, bonito, aonde as almas pecam o corpo empobrece, um lugar tão bom que muita gente dizia:
_ Isso aqui parece o céu, brother!
Não contente com tal esperteza, Deus pediu mais, acrescentou uma letra ao desafio pra logo ganhar e curtir o paraíso em paz. Já com tudo arquitetado, com um jeito acertado, disse logo com aquele ar superior:
_ Ah, o AMOR. O amor, sentimento sublime, que tudo pode, tudo suporta, tudo conquista.
O Diabo concordando já foi logo se posicionando:
_ Tudo bem, eu admito, tudo isso é tão bonito. Pra provar que não sou malígno, não posso criar algo menos digno. Eu, então, crio a PINT, o líquido dos Deuses!
Deus, rapidamente contestou:
_ Mas isso não é um sentimento!
E o Diabo já precavido, ainda com um tom atrevido, não pestanejou e falou:
_ Não é sentimento, mas pode mudar todo o momento. Quem toma desse líquido tudo pode, tudo suporta, tudo conquista. Se o amor é sentimento invisível, pint é sentimento líquido, tão bom que é quase indescritível. 😉

10 anos

19 de março de 2014

Hoje, exatamente hoje fazem 10 anos. Como o tempo passa rápido. Como a vida muda rápido. E o sentimento não muda nunca.

Foi em 2004 que eu vi aqueles olhos pela primeira vez. Não sei o que me chamou mais atenção: o skate, as calças largas, a cara séria, a concentração. O que eu sei foi que no exato momento que eu o vi, algo mudou. Uma vontade incontrolável de dizer um “oi” tomou conta de mim e foi isso que eu fiz. Ele veio, em cima do skate, em minha direção. Quando estava bem perto, se preparando pra partir novamente, eu não me aguentei: “oi menino”. Ele olhou rápido, não sorriu, não esboçou nenhuma reação. Ele disse “oi” e saiu, restando apenas o eco dos seus rolamentos batendo no piso da praça. Pronto. Aquelas duas letrinhas foram suficientes pra eu nunca mais esquecer.

Eu não lembro como aconteceu depois. Eu lembro que por causa de um amigo em comum, saímos todos juntos. O lance era forró. O lugar era um dos gramados da Ufes. A essa altura eu já sabia que ele não era daqui. Não menos tímido, mas já falando mais que um rápido e delicioso oi. Eu vou te ensinar a dançar. Vou te ensinar a entrar no embalo desse ritmo. Vou te mostrar o compasso da minha alma. Vou abrir os segredos do balanço do meu peito. Vou colar meu coração no seu – porque no forró é assim que se faz – e nunca mais vou desgrudar. Naquele vento, sob aquela lua, com aquela música, sobre aquela mesa velha. Minha boca colou na sua e o ritmo da batida do meu coração acelerou – quase um forró pé de serra.

Era 19 de março de 2004. Durante esses 10 anos que se seguiram, não houve um só dia em que eu não pensei, em que eu não sonhei, em que eu não desejei. 10 anos depois eu mudei, mas a batida do meu peito continua a mesma toda vez que seus olhos me vêm a mente. O coração pula num ritmo acelerado, o pulmão quer absorver todo o ar e não consegue, o estômago faz um eco como os seus rolimãs, a alma busca um caminho pra ate reencontrar e os sonhos me brindam com seu abraço apertado e os melhores momentos de amor e paz que eu posso sentir em minha vida.

=) 

13 de novembro de 2013

e que nunca te faltem palavras, porque a verdade é uma só
que nunca te falte a verdade, porque a verdade não tem meias palavras
a verdade tem as palavras certas, nem sempre muitas, nem sempre poucas, às vezes mudas
palavras que se calam na boca, mas exalam da pele, transbordam nos gestos e explodem no olhar
palavras mudas que fulminam
e que nunca te faltem palavras, porque a verdade é uma só
e mesmo sendo tão fácil, por que é tão difícil?
e já que o assunto são palavras, quero apenas duas delas:
VERDADE e SINCERIDADE
é tudo que eu quero ao meu redor
ainda que doa e que me jogue no chão
cada sinceridade devastadora me faz dar um passo pra trás e infinitos pra frente
e com todo pleonasmo que me é permitido,
a verdade verdadeira e
a sinceridade sincera
nunca destroem, mas sempre constroem

amor em dois atos

25 de abril de 2013

olhos
olhar
boca
beijar
orelha
excitar
mão
tocar
pele
esquentar
pelo
arrepiar
pulmão
ofegar
coração
disparar
olhos
hipnotizar
boca
sussurrar
orelha
escutar
mão
apertar
pele
queimar
pelo
arrancar
pulmão
falta ar
coração
festejar =)

one day

5 de janeiro de 2012

Um dia pode ser tarde demais pra vivermos o que que ficou guardado. Por isso a pressa. Por isso a vontade louca de colocar pra fora, de dizer. De dizer o que eu não sei mais o quê. O que eu ainda preciso descobrir ou redescobrir. Por isso a vontade louca de te conhecer novamente, saber em quem você se tornou. Por isso o desejo maior a cada dia de te tocar de novo, escutar sua risada e ver seus olhos abrirem de manhã. Tanto tempo se passou, e tanta coisa mudou. Tantos toques, tantas mãos, carinhos e olhares. Mas a cor dos seus olhos eu nunca mais encontrei, o cheiro, o gosto, o sotaque, a seriedade, as brincadeiras. Nada disso se repetiu depois daquele adeus. E dói de pensar que um dia pode ser tarde demais, por isso a pressa. A pressa de embarcar no desconhecido e esperar o melhor, independete do que seja. Já são sete anos e você ainda continua aqui. Ainda ocupa uma parte dos meus pensamentos dia após dia, cada vez mais vivo, mais real, mais bonito,. Já não brigo mais com a vida por achá-la injusta. Ela te levou pra longe, mas ela me deu uma das únicas certezas que eu tenho na vida: é você. Ainda é você que eu quero.

Resposta

18 de novembro de 2011

Se eu ainda estou com raiva? Defina raiva, por favor. Raiva é forte demais, e não cabe na nossa amizade. Decepção e tristeza sim. Isso existe. Mas é coisa que passa. É coisa que a gente sente porque gosta. Porque ama. Porque se dedica. Porque quer bem. Porque quer estar perto e não pode. Porque faz parte da gente. Mas olha que incrível. Essa tal de decepção, essa tal de tristeza, se dissolve diante de um sorriso, de um abraço, de um carinho, de uma palavra bonita.  Acaba e não volta mais. Mas deixa pra traz uma amizade muito mais forte, um carinho muito maior e a certeza que é de verdade. Se não fossem os desentendimentos, como íamos nos entender? Assim colocamos os pontos nos is. Assim colocamos pra fora o que magoa. Assim nos livramos do incomodo. E assim voltamos à amizade mais fortalecidos. Mas certos de nós mesmos. Mais felizes. Mais ansiosos em se encontrar. Assim, desse jeito. Mais leves. Mais APS. Mais sempre e sempre e sempre. Mas raiva, definitivamente não, ok?

Coisa que a gente sente

15 de agosto de 2011

Às vezes eu tenho a impressão que eu morri, principalmente quando eu falo com alguém e a pessoa não me responde. Eu me aperto pra ver se realmente estou ali e procuro outra pessoa que me veja talvez. Aí digo um “oi” só pra constar. Se ela me responde, eu sei que tô viva.

Às vezes também, eu tenho a impressão que morri quando ando pela rua. Tudo parece tão distante e irreal. O barulho do trânsito fica baixinho, vejo as pessoas como num filme mudo e tudo parece um sonho. Olho nos cruzamentos pra ver se vejo meu corpo estirado no chão. Aí do nada, acordo do transi.

E às vezes eu tenho a impressão que morri quando olho pro celular o dia inteiro esperando uma ligação. Espero um alô doce que nunca vem. Escuto o toque a cada minuto. Imagino o diálogo e sempre penso que o telefonema vai ser só o começo de um dia bom. Mas o telefonema chega pra terminar um dia ruim. Aí eu tenho a certeza que morri. Não para o mundo. Morri pra você.

O “véio”

10 de julho de 2011

Fica calma. Fica calma foi o que eu mais escutei nessa manhã. Mas acontece que eu estou calma, mas é inevitável que a tristeza escorra por meus olhos. Porque pode até ter sido melhor como dizem, mas continuo sempre achando que o “véio”, o meu “véio”, o seu “véio”, não merecia acabar a vida assim. Não merecia ter sido vítima da ganância de uns e pagar por isso até o último suspiro. Mas me conforta saber que ele viveu. E como viveu. Me conforta a lembrança de neta distante que o via chegar e ao mesmo tempo sair dizendo um simples “ó, tô chegando e tô saindo”. Me conforta olhar todos os dias pra geladeira mesmo não encontrando os três reais lá em cima. “Ah! É um real pra você, um pro seu irmão e um pra sua irmã. Pro sorvete.” E de fato, acho que nunca fiz outra coisa com aquele um real que não fosse tomar sorvete. E o que vai ficar na lembrança são as balas, a boina e a Samsonite. O gosto dos biscoitos papa ovo e a maneira como ele passava as mãos ao redor da cabeça pra mostrar qualquer sentimento que fosse.

Ele foi o único avô que eu conheci, e mesmo desse jeito longe, desse jeito chegando e saindo, desse jeito doido e torto, me orgulho de poder dizer como foi bom ter um avô. O vô. O “véio”. O Zé Reis. E eu, que nunca pensei que fosse doer tanto, fico feliz por sentir meu peito apertar e saber que meu carinho, meu amor, é muito maior do que imaginei.

Vai com Deus, vô. Dá um abraço na vó e saiba que aqui tem um monte de gente que te ama, que te quis bem, que lutou pra te dar um restinho de vida digno. Eu sei que foi difícil e não deu pra esperar. Não tem problema. A gente fica com sua gargalhada e o seu jeito único na memória. Prefiro pensar que agora o senhor está feliz, longe do ódio, andando de novo.

Da sua neta distante que descobriu nesse último momento o quanto te amou. Mariana REIS – com muito orgulho.

Contrastes

14 de junho de 2011

Ela disse que podia jurar: se lhe perguntassem, se lhe dessem a chance de voltar e de mudar aqueles dois dias e meio, ela não mudaria em nada. Apesar de a parte ruim ter sido muito ruim, a parte boa foi muito boa. Apesar da morte ali, na sua frente, a vida lhe gritava aos ouvidos e fazia seu corpo reagir, gelar, tremer, bambear. Fazia seu sangue pulsar forte quase que dizendo: Ei, isso é ruim, mas você está viva e enquanto você estiver aqui e não ali no asfalto, ainda há emoção, ainda existem chances, caminhos, sorrisos, abraços e calor.

Ela, diante do fato confirmado de que a vida é tão absurdamente curta, tão inesperadamente imprevisível, teve vontade de gritar, olhar nos olhos de cada pessoa que passou em sua vida e resolver pendências passadas que provavelmente nunca serão resolvidas. Ela teve vontade de abrir seu coração, escancarar seus desejos, abraçar seus amigos que estão longe. Por sorte, suas mãos trêmulas encontraram abrigo em mãos desconhecidas até então, mãos quentes. Ela chegou em casa e aquele silêncio ensurdecedor não a deixava em paz. Olhou seu irmão dormindo e deitou no calor do abraço de seus pais. Um alívio depois de tudo que vira. Um oasis no deserto da tristeza e do desespero.

Então por quê? Por que não dar chance ao novo? Por que não se abrir para o desconhecido, o inesperado? A vida pode ser tão breve e tudo que a gente conhece, por mais que seja muito, ainda não é nada. Foi assim que ela pensou quando o telefone tocou logo pela manhã. Entre atender e voltar para o abismo de sua cama, ela atendeu. Voz estranha do outro lado, mãos quentes também. E ela foi. E ela riu. E olhou fundo no verde daqueles olhos que mais pareciam rios na beira da mata. Ela sentiu o vento daqueles cílios longos quando piscavam e admirou aquele sorriso fácil, grande e bonito. Sentiu aquele cheiro novo, cheiro bom. Olhou o mar, a lua, as estrelas, as pessoas. Olhou a vida acontecendo e resolveu parar de pensar na morte. Resolveu que a vida é bonita demais, é boa demais e é imensamente interessante, principalmente quando observada em pequenos detalhes.

O momento do não

25 de maio de 2011

Eu, aqui, com tanta coisa mais importante pra pensar e não consigo pensar em outra coisa. Ok, eu admito, nem tenho tanta coisa assim pra pensar. Uns dilemas existenciais ali, uns diálogos inventados aqui, algumas horas pensando no trabalho… Fora isso, eu, que devia pensar em tantas outras coisas interessantes, não paro de pensar no que não devia. Mas como pensar é de graça, e de graça dizem que até injeção na testa é válido, fico com o pensamento em você, porque injeção na testa não deve ser nada bom.

Eu nunca estive no meio de um furacão de verdade, mas posso bem imaginar como é, e se não é como eu imagino, me concedo o direito de inventar, ou só dar um nome ao sentimento. Furacão, que passou, deixou mil marcas e eu nem vi. Que foi tão irreal e intenso, que ainda estou digerindo. Que veio, começou o estrago, mas não acabou. Que ficou aquele gostinho de quero mais – se é que alguém pode querer mais de um furacão. Mas é isso mesmo, adrenalina, bagunça, desordem, caos. Tudo que sempre faz a gente se arriscar. Aquela sensação de perigo, mas que insiste em borbulhar na boca do estômago. A gente sabe que está pulando pra morte, mas espera que a corda elástica nos puxe de volta. É tipo isso. Vontade reprimida de fazer o que não se deve. Mesmo sabendo das consequências. Só o que podemos fazer é torcer ou rezar – cada um com suas crenças – pra que no olho do furacão tenhamos um momento de clareza. O momento do não. Ou não. Por que não?

Um+um+um=três

18 de maio de 2011

Fico tentando lembrar qual a aula que faltei, há muitos anos, que ensinou que um trio, ou um triângulo ou qualquer coisa tri só existe com três partes. Tento insistentemente lembrar, pois acho que não aprendi essa lição. E a gente sempre complica muito, sendo que a equação é a mais óbvia possível: um+um+um=três. E três não é dois e dois, sozinho, não consegue ser um. Talvez porque aquela velha regrinha se aplique bem ao caso: Os opostos se atraem e os iguais se repelem. Talvez somos mais iguais do que pensamos. O que não é de tudo ruim. Ser igual a inúmeras qualidades que sempre admirei deveria ser um privilégio. Ser igual a inúmeros defeitos que nem o próprio dono suporta, é um estigma, mas faz parte e precisamos aprender a conviver com isso. Mas voltando a questão inicial, onde um trio não existe sem a terceira parte, ou a segunda, ou a primeira, ou nem mesmo necessariamente nessa ordem. Em um trio todas as partes devem, não ser exatamente iguais, mas possuírem o mesmo peso pra esse trio ficar de pé. E aí,  sem uma parte, o trio que já não é assim de fato um trio, desaba. Cada parte rola perdida pra um lado. Cada parte começa tudo de novo. Cada parte se acha muito mais sensata que a outra e acaba se esquecendo de quem mesmo tem razão, se é que alguém tem razão. Cada parte espera o ego e o orgulho desinchar e torce inconscientemente por um esbarrão no caminho. Por um sorriso sincero, um abraço desejado e um tchau. Porque não se pode ou não se deve esperar muito mais que isso. É melhor ficar com as boas lembranças de um trio do que com um trio que não se encaixa. Ou é mesmo melhor continuar rolando, esquecer toda essa bobagem paranóica e deixar que a vida siga seu rumo. Talvez seja melhor acreditar nesse tão falado destino, nesse famoso acaso e continuar assim.

Mas se esqueceram do título

28 de abril de 2011

O desafio do branco. Do papel branco. Da tela com um papel branco.

Que agora já não é tão branco assim.

Ele disse que escrever é a arte de cortar palavras. Sim, é, quando todas as ideias já transcenderam do cérebro, da mente, da ponta da língua para o papel branco, para a tela com um papel branco.

Escrever é a arte dos dedos entenderem a cabeça, porque quando se está cheio de pensamentos, os dedos pensam antes que a cabeça e escrevem antes do pensamento.

Então não seriam os dedos os grandes amigos do sentimento? A língua, a boca, a fala também, mas estes não sabem guardar segredos. Os dedos, estes sim, são amigos fiéis. Sentem junto com o sentimento e às vezes sentem antes do sentimento sentir. Desabafam as angústias, os medos, alegrias e amores e ainda sim guardam segredo. O que torna o sentimento refém dos dedos, que escrevem, e não importa, se não gostam, apagam. E apagam o sentimento que continua guardado, reprimido.

Eles também são traiçoeiros, o desafio do branco era pra ser algo bonito, intenso, talvez de amor, mas eles não quiseram se mexer, juntaram-se todos e tiveram a brilhante e egocêntrica ideia de escrever sobre si próprios.

Só o começo de um texto sem fim

5 de abril de 2011

Tenho pensado muito.

Ando desenterrando defuntos. Mas nada de carcaças. Só encontro almas.

Lembranças boas que foram esquecidas em meio a tantas palavras rudes. Em meio a tantas palavras não ditas.

Orgulho-me de conseguir abstrair tudo o que foi ruim e guardar comigo só a essência. Só o que marcou.

Os apelidos carinhosos, os sorrisos, as conversas longas…

Kits

28 de março de 2011


KitKits é um passarinho que canta canta bem baixinho e ainda sim todo mundo para pra escutar a beleza do seu canto.

KitKits é um passarinho que voa baixo, que voa alto, que voa. Que faz do seu voo um show e de cada movimento uma dança bonita.

KitKits é um passarinho que sugou da natureza uma explosão de boniteza, cores, sons, formas, tons. Um passarinho que adora o seu ninho, que cuida dele com carinho.

Mas KitKits vai embora, e todos os passarinhos chora.

Chora por não ter mais assim pertinho as palavras de carinho, as risadas e os papinhos e seu mundo perfeitinho.

Chora por não ver os seus cachinhos e apertar com um grande abraço seus ossinhos.



Chora sim, mas fica feliz ao mesmo tempo. KitKits tá voando pra longe, desenhando nas nuvens seus sonhos, esfriando a cabeça no vento.

KitKits tá feliz e o seu canto é mais bonito, suas cores são mais vivas, sua dança mais caliente.



KitKits será nossos olhos, ouvidos e bocas, desbravando um mundo novo, cantando outra língua, conhecendo los hermanos e se transformando de novo.



Ai da Kitkits se sumir entre as nuvens, se não mais cantar, se parar de alimentar nossas vidas com tanta alegria, com tanto amar.



Vai Kits, voa pra longe, mas leve com você todo nosso carinho e amor, nossa amizade sincera, nossas boas vibrações, nossas boas gargalhadas, choros e confusões.

Vai Kits, voa pra longe, sobe sobe bem lá no alto e conta pra gente o que vê. E dê um lindo tchau, e balance as asas até o vento tocar nossas almas e nos arrancar sorrisos.

Vai Kits!

 


Eu entendo

19 de fevereiro de 2011

Eu sempre perguntei, questionei e condenei esse jeito estranho de estar com alguém sem estar 100% com alguém. Esse tal título “namoro”. Sempre disse: pra que você namora se não gosta totalmente e exclusivamente? Pra que você namora e olha para os lados ainda sim? Pra que você namora mas ta sempre em busca de novas aventuras pra se viver? Pra quê?

De fato eu nunca entendi ou nunca me permiti entender. Talvez por insistir em manter uma mentalidade sonhadora e infantil. Talvez por acreditar demais nas pessoas, no mundo, nesse tal sentimento que alguns chamam de amor mas que ninguém conhece até senti-lo de verdade. Talvez por me distanciar da paixão, evitar sentimentos, evitar pessoas que pudessem despertar isso em mim. Por me fechar tanto mesmo quando pareço um livro aberto.

Mas a gente cresce, e a cada segundo vê desmoronando um pilha de crenças que te sustentavam, e pra não desabar, naturalmente a gente começa a enxergar o mundo com outros olhos. Naturalmente a gente começa a olhar pra dentro, sem se preocupar tanto com o que nos cerca. E é aí que a gente começa a entender as pessoas, entender como o mundo funciona. É aí que a gente começa acreditar e sentir, afinal, mesmo tão diferentes, no fundo somos todos iguais.

O que a gente quer é carinho, abraço e palavra bonita. O que a gente quer é uma sexta à noite de lua cheia, mãos dadas, filme na TV, a gente quer domingos entediantes comendo guloseimas a dois. A gente quer companhia pra fazer simplesmente nada, pra ser simples, pra acordar e olhar pra outros olhos ao invés de um teto branco. A gente quer opinião, ciúmes, brigas bobas e reconciliações quentes. A gente quer drama porque a vida sem intensos acontecimentos perde a graça. Enfim, a gente quer fugir da solidão e dar adeus a carência porque simplesmente não nascemos pra viver sozinhos. Não nascemos pra carregar um coração vazio e as borboletinhas do nosso estômago esperam ansiosas pra festejar.

Eu entendo, você não precisa estar 100%, totalmente e definitivamente com alguém. Você não precisa achar o amor, a razão de sua vida assim logo no primeiro tempo. Você só precisa não estar só. Solidão dói mais que separação, mais que traição, mais que qualquer fim.

Aqui se faz…

10 de fevereiro de 2011

De repente o sapo virou príncipe e todas as certezas que ela tinha foram pro ralo.

Ela acordou nessa manhã e não conseguia pensar em outra coisa. Um intervalo de tempo tão curto desde a última vez que ela o viu. Como pode? Ela o conhecia tão bem e de repente não o conhecia mais.

Talvez ele sempre tenha sido um príncipe. Um príncipe disfarçado, escondido em uma aparência estranha, uns óculos que não mostrava seus olhos. Escondido por aquele jeito infantil. Ainda sim, há vários anos ela estava ali. Ou era ele quem sempre esteve ali. É difícil saber. Ele era o brinquedo, a garantia, o amigo. Ela? Ele nunca deixou claro, mas esteve ali todo o tempo. E agora, agora que o sapo virou príncipe, agora que ela viu seus olhos, agora que ele deixou o disfarce de moleque e se vestiu de homem, cabelo, barba, pelo, gestos e palavras.

Ela nunca ficou tão insegura por uma coisa que nunca foi dela, por um brinquedo que agora tem pilha e pode sair andando e não mais voltar. E ela, sempre tão aparentemente segura de si não pode dar o braço a torcer. Ela não sabe como fazer isso, está a deriva procurando onde se apoiar. Ela só não quer ficar sem o sapo e tem medo que o príncipe pegue seu cavalo branco, saia por aí e não volte mais.

Sorvete de morango

25 de agosto de 2010

Eu não ligo. Pode aquecer meus ouvidos nesta noite fria. Mesmo que não esteja aqui, colado em mim embaixo da coberta. Que seus pés quentes estejam longe dos meus pés gelados. Sim, eu imagino seus pés quentes. Eu não ligo. Pode ligar o ventilador aí pra me refrescar aqui nesta noite quente. Pode repetir as histórias. Me apresentar personagens que provavelmente eu nunca irei conhecer. Pode me contar o que você aprendeu hoje no cursinho e o que não aprendeu porque não conseguia tirar os olhos da menina da boca bonita que senta ao seu lado. Pode me contar os diálogos em detalhes, as brigas, as consultas ao médico, as travessuras. Pode simplesmente dizer “boa noite”. Confesso que nunca escutei um “boa noite” tão gostoso, tão feliz, tão animado. E sempre vou repetir: “como você consegue atender ao telefone tão feliz assim a essa hora?”. Pode fazer planos, escolher o nome dos nossos cinco filhos (eu deixo você escolher), decidir a cor da nossa casa. Pode misturar realidade com sonho com imaginação. Pode me levar nessa viagem, eu gosto. Pode fugir da realidade, inventar outro plano, fingir que não existe mais nada nem ninguém no mundo. Pode falar bobagens, fazer piadas, cantar suas músicas bregas. Pode até escutar aquele axé velho e achar que é a melhor coisa do mundo. Pode me esperar escovar os dentes, escutar cada barulhinho que eu tento não fazer. E pode ficar em silêncio, isso não me constrange mais. Pode me xingar, dizer que eu sou confusa, que reclamo demais, que só penso em bobagem. Pode suspeitar da minha sexualidade e dizer que se eu não fosse tão doidinha, me pediria em casamento. Pode, pelo simples fato que me faz bem escutar sua voz. Me faz bem quando você fala aqui, no meu ouvido, coisas que só eu escuto. Sou dona de todas as palavras. E pode se deliciar com todos os sorvetes de creme. Eu sou sorvete de morango. Você é sorvete de morango. É isso que importa.

Quando foi que ela cresceu e eu não vi?

15 de maio de 2010

Hoje eu vou buscá-la na casa do namorado. Ela passou o final de semana todo lá. Eu não sei o que tanto ela faz lá. Meu coração, sinceramente, espera que ela tenha dormido no sofá da sala. Mas a quem eu quero enganar, se não a mim mesmo? Ela insistiu. “Eu posso ir de ônibus”. Mas eu faço questão. No fundo, quero poder me sentir tão pai quanto um dia eu já fui. Eu vou buscá-la. Mesmo não me conformando em ver aquele cara. Quem ele pensa que é? Aperta a cintura dela, fala coisas baixinho no ouvido e o pior, beija ela. Tudo isso na minha frente. Onde foi parar o respeito? Ontem mesmo, ela era só uma menininha. A filhinha do papai. Ela brincava de boneca. Brincava de vendinha. O mais perto que chegava de um rapaz, era do próprio irmão ou dos amiguinhos da escola. Eu buscava ela na escola. Era bem menos cruel que buscá-la na casa do namorado. Ontem ela ainda falava errado e me chamava de papai. Hoje ela diz “Não mexe comigo, tô com uma puta TPM!” Meu Deus, quando foi que passou a ter TPM que eu não percebi? Esse tipo de problema tão feminino, tão mulher. Mas ela é só uma menininha. Ou era. Ou eu tenho que me convencer disso todos os dias. Tento eliminar da minha memória todos os momentos “é, não tem jeito, você cresceu”. Formatura, namorado. Ela anda de ônibus sozinha, conhece a cidade. Sai de noite com as amigas, não tem hora pra chegar em casa. Viaja sozinha. Ela, na estrada, sozinha. Faz planos de conhecer o mundo. Ontem, seus maiores problemas eram sua boneca que perdeu a perna ou o pneu da bicicleta que estava murcho. Hoje eu a vejo chorando. Queria tanto que fosse por causa de um tombo de patins ou porque prendeu o dedinho na porta. Como ela era desastrada. Mas não. Hoje ela chora porque terminou com o namorado. Chora porque está sem emprego. Chora porque tem sede de crescer, de voar. Mas suas asas ainda não aguentam o peso dos seus sonhos, são muito pequenas. E mesmo vendo isso tudo, me recuso a abrir os olhos e ver que ela cresceu. Deixou a boneca de enfeite em cima da cama e hoje tem problemas de gente grande. Por isso é tão difícil ser pai, quando ela deve dizer a mesma coisa. “É tão difícil ser filha. A menininha do papai”

Eu pago a conta

12 de maio de 2010

Alô? Oi sumido, tudo bem? Ah, eu tô bem sim. Queria falar umas coisas com você. Será que podia tomar uma cerveja comigo mais tarde? Qualquer bar, eu deixo você escolher.

Oi! Que bom que você está aqui. Hmmm que abraço forte! Mas falando sério. Só preciso que você me escute hoje. Mas antes da gente sentar, eu preciso fazer uma coisa. Não. Não precisa virar o rosto, por favor. Olha pra mim. Eu não vou fazer nada demais. Só preciso que nossas peles se encontrem e nossas salivas se misturem pra que eu possa sentir como meu corpo reage a você.  Saber se minha mente está sozinha ou não nessa. Pronto! Doeu? Vamos sentar. Pede ai a cerveja. Pode ser Brahma, é a melhor mesmo. Um brinde a coragem que me trouxe aqui hoje. Às boas e novas. Você deve estar me achando uma maluca né. Mas relaxa, tô só sendo eu mesma. Pelo menos uma vez na vida a gente tem que ser. Uma amiga me disse que a gente não deve deixar nada mal resolvido. E eu preciso muito te falar isso tudo, se não daqui a 50 anos eu corro sérios riscos de ter um tumor na cabeça. E eu não quero ter um tumor. Também não quero conviver mais com isso. Se a melhor forma é botar pra fora, aí vai. Sabe quando você repete uma palavra várias vezes até que enfim ela perde o sentido? Eu repito você mil vezes a cada dia. Vou continuar repetindo, até que perca o sentido em mim. Você já deve saber do que se trata, claro. Acho, sinceramente que se faz de besta. Deu uma conveniente afastada pra não ter que arcar com as consequências do vazio que preencheu e do cheio que esvaziou assim, sem piedade. Fui uma válvula de escape sim. Mas você se esqueceu que sou uma válvula de escape humana. E agora? O que eu faço com isso que fica aqui dentro me incomodando o dia todo? Sem esperança alguma e, sinceramente, sem muita vontade também, eu jogo isso em cima de você. Vomito essas palavras e quero que você engula cada uma delas. Se vai digerir ou não, problema é seu. Mas espero que elas fiquem aí, doendo e embrulhando no seu estômago, assim como estão no meu faz algum tempo. Não é justo. Você não é nada. Nada. Nada do que eu queria pra mim. E do nada você virou tudo o que eu queria. Você não é tão educado assim, não tem o futuro garantido, nem é tão bonito, está fora de forma e nem é tão gentil. Anda a pé, arrota, e eu até já vi uma cerinha em seu ouvido que achei nojento. Não consigo entender. Não consigo me entender. E passo os dias tentando lembrar qual foi a hora em que eu passei a ficar nervosa quando te via. Qual foi a maldita hora que passei a ter ciúmes do que existia e do que não existia. Não. Não foi naquela noite. Com aquele beijo. Com algumas cervejas na cabeça. Nem foi assim tão bom. Sei que podia ter sido bem melhor. Será que foi na hora em que eu deixei você se dissolver por entre meus dedos? Não quero me acusar disso. Acho que por mais que eu tivesse fechado a mão, te segurado bem forte, você escaparia. Pelo simples motivo de não querer estar ali. Um fio de algodão te prendia a mim, contra uma corda de navio que te puxava. Eu ia ver você partindo de qualquer maneira. Minha amiga falou também pra eu evitar tirar conclusões precipitadas. Mas é difícil não o fazer vendo você assim hoje. Cadê os cinemas? Os livros? Os lanches? Os planos? As conversas substanciais, complexas, enriquecedoras? Era tudo farsa? Ou apenas alimento pra que eu continuasse ali, escutando, escutando, escutando, escutando, aconselhando e me ferrando. Não tenho bases psicológicas pra lidar com isso, desculpa. Em mim, toda ação, gera uma reação. Você começou. Você alimentou. Você não aguentou. Você fugiu. Virei passado. Acho que falar isso tudo é o que faltava pra limpar você de mim. A milésima repetição e você perde o sentido. Não. Não estou bêbada. Só tomamos 3 cervejas ainda. Não tenho muito mais o que falar. Vou ficar por aqui. Se você quiser, pode ir embora. Eu pago a conta.